segunda-feira, 19 de março de 2012

O Segredo do Sucesso

 

*Bruno Medina
No início da década de 60, dois compositores – em busca de firmar suas carreiras através de um primeiro sucesso radiofônico – receberam de um produtor uma inusitada missão: compor, para um musical chamado “Blimp”, uma música que descrevesse a paixão de um extraterrestre por uma bela carioca. Tão logo a dupla topou encarar o desafio, um dos parceiros percebeu que tratava-se de uma excelente oportunidade para aproveitar uma melodia que há pouco tinha composto, muito embora a letra provisória fizesse o contraponto entre o voo de uma gaivota e os passos de um homem solitário. Nada a ver. Troca um verso daqui, dá um tapa dali, a peça acabou não decolando, mas a canção sim, era “Garota de Ipanema”.
Alguns anos se passaram e, em outra parte do mundo, uma prestigiada banda de rock trabalhava em composições para um novo disco quando tomou conhecimento de que as letras de suas músicas estavam sendo estudadas em salas de aula. Ao invés de se orgulhar do feito, o grupo enxergou a coisa pelo avesso e, só a título de confundir ainda mais alunos e professores, resolveram criar versos entulhados de palavras que não fizessem qualquer sentido. E essa foi a inspiração que motivou a composição de “I am the Walrus”, dos Beatles. Uma última, pra terminar: jovem músico, genial e atormentado, chega em casa e encontra uma das paredes pichada por uma amiga. A frase que o inspirou a compor o mega hit que se tornaria um divisor de águas em sua própria vida, bem como o hino de uma geração, fazia menção ao fato de que ele cheirava ao desodorante que sua namorada costumava usar; foi assim que nasceu “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana.
Apesar de darem margem a se pensar o contrário, as três historinhas são reais, e têm em comum o fato de revelar uma inquietante verdade: grandes músicas podem surgir de inspirações (muito) pouco nobres. As revelações acima não deixam de servir como instrumento de reflexão sobre o funcionamento da porção ‘fã’ que existe dentro de cada um de nós. É interessante notar – e acho que aqui falo de um sentimento quase que universal – como, ao promovermos determinada canção ao seleto grupo das ‘prediletas’, nutrimos secretamente a expectativa de que a origem daqueles versos e notas que nos são tão especiais seja também especial para quem os compôs.
Afinal, de que outra maneira poderíamos suportar a frustração a reboque da descoberta de que aquela canção única, que por alguma razão, consciente ou não, assume novos significados calcados em nossas emoções mais particulares, foi concebida num momento mundano, a partir de um arranjo oportunista do acaso ou da sinapse criativa emprestada de um vagabundo qualquer? Outra leitura possível seria tomar a trivialidade da gênese de uma música de sucesso como prova incontestável de talento do seu autor. Trata-se, portanto, de uma questão de ponto de vista.
Eu, por exemplo, sou daqueles que prefere não saber de nada. Se minha música do coração foi composta em alusão a uma unha encravada ou em homenagem ao poodle da Dona Anete do apto 104, que os pormenores dessa estranha obsessão permaneçam encobertos pelo manto sagrado que jaz sobre a genialidade do ídolo. E desculpem-me se contei o final do filme lá em cima, mas como expor meu ponto sem quebrar alguns ovos? Independente de sua posição quanto ao tema proposto, perceba como é tortuoso o trajeto que sempre separa a concepção e a percepção de um trabalho artístico, seja qual for sua natureza. Para mim, pelo menos, o segredo continua sendo a alma do negócio. Provavelmente, fosse conhecida desde sempre a identidade da Mona Lisa, seu retrato não atrairia todos os dias milhares de visitantes ao Louvre, certo? Ou não?

Fonte : G1 Blog Instante Posterior 

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