segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cérebro busca prever como os outros vão agir



A menos que uma pessoa diga o que queira, descobrir o que se passa em sua cabeça é uma tarefa complicada. Mas o cérebro humano não desiste e dedica boa parte do tempo procurando adivinhar escolhas e preferências alheias. O processo, nem sempre consciente, ocorre, por exemplo, quando alguém tenta comprar um presente para um amigo ou pensa na melhor maneira de dizer algo ao outro. Na busca por mais informações sobre essa atividade da mente, pesquisadores do Japão passaram a observar como o cérebro simula o pensamento dos outros.

A pesquisa, divulgada recentemente na revista Neuron, foi realizada pelo Riken Brain Science Institute, em Saitama, no Japão. Com a ajuda de uma máquina funcional de ressonância magnética, os cientistas viram que sinais cerebrais eram ativados quando voluntários tentavam fazer escolhas similares às de outras pessoas. O resultado mostrou que a simulação de pensamento depende do julgamento do próprio indivíduo, mas é definida principalmente pela observação. Quanto mais familiar o comportamento do outro, maiores as chances de acertar as escolhas que ele deve fazer.

Essa ação cerebral foi vista pelos pesquisadores de uma maneira relativamente simples. Eles montaram um experimento no qual os voluntários tinham de fazer uma série de escolhas entre duas figuras. Caso escolhessem a correta, receberiam uma recompensa aleatória. As pessoas tentavam então criar uma relação direta entre as escolhas e os resultados. Durante o teste, os estudiosos notaram uma atividade cerebral que chamaram de sinal de recompensa. Essa conexão ajuda o cérebro a ligar cada ação a uma determinada consequência, para que depois a pessoa seja capaz de dizer qual é a melhor escolha quando aquela situação voltar a ocorrer.

Ao pensar no que os outros podem fazer, o indivíduo tende a usar esse aprendizado para avaliar qual atitude é mais viável. “Você pode tentar adivinhar a expectativa do outro simulando o sinal de recompensa dele”, diz Hiroyuki Nakahara, um dos responsáveis pelo experimento. Mas nem sempre as pessoas escolhem os caminhos mais óbvios. “Há uma diferença crítica quando você faz uma decisão própria, escolhendo uma opção baseada nas consequências possíveis, e quando você tenta prever a decisão do outro. Você também pode formar uma expectativa de que opinião ele pode escolher, observando o que a pessoa já tem escolhido”, completa.

Observação
Como não é garantido que as pessoas façam a “coisa certa”, o cérebro precisa saber como o outro agiria, independentemente da recompensa que essa ação possa trazer. Para ver como esse raciocínio funciona, os voluntários voltaram para a máquina de ressonância, dessa vez para adivinhar que escolhas os colegas haviam feito no teste anterior. A cada figura apontada por eles, o monitor mostrava se a opção combinava ou não com a escolha do outro voluntário. Nessa hora, o sinal ativado no cérebro não era o de recompensa, mas o que os pesquisadores denominaram sinal de ação, uma conexão que aprende o comportamento alheio. Ele compara o que o cérebro pensa que o indivíduo vai fazer com o que ele realmente faz. Daí, usa esse conhecimento sempre que for simular o pensamento dele.

Esse sinal fica mais ativo, apontam os pesquisadores, quando uma pessoa interage com outra que não tem os mesmos valores que os dela. “Estamos interessados nos outros porque os consideramos similares a nós, mas, por outro lado, somos todos diferentes. O sinal de recompensa ajuda a entender o outro, baseado nas similaridades dos nossos processos internos, enquanto o sinal de ação ajuda a aprender sobre o outro mais baseado na diferença de comportamento entre os dois”, resume Nakahara.

A pesquisa aponta ainda que, embora o sinal de ação fale mais alto na hora de simular um pensamento, a recompensa continua funcionando. Isso significa que as pessoas aprendem com os próprios erros, mas também tiram algum conhecimento da experiência dos outros. A especialista Candice Alvarenga, neurologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB), ilustra a situação de uma forma simples: “Se você dirige, aprende qual rua é o melhor caminho. Esse é o sinal de recompensa. Mas, quando você está de carona, pensa o tempo todo no caminho que o outro deve pegar. Se você nota que ele faz opções ruins, passa a vê-lo como mau motorista, daí o sinal de ação. Mas, se ele pega um caminho novo que você nunca viu e que é muito melhor, você aprende a ir por ali”, explica.

Ela ressalta que esse pensamento de empatia ocorre o tempo todo, de forma quase sempre inconsciente. “Na verdade, é uma mistura do pensamento inteiro, porque envolve o raciocínio. Você se lembra das coisas, então usa a memória visual, e acessa aquilo com toda a área da sensibilidade, além de usar a coordenação para fazer o que está pensando. Tudo isso está envolvido”, explica a neurologista.

Empatia
Embora todo o cérebro esteja envolvido nesse raciocínio, os pesquisadores japoneses afirmam que uma pequena área é responsável por quase toda a simulação. Os sinais de recompensa e de ação ocorrem ambos no córtex frontal, a parte do cérebro responsável por planejar funções. Enquanto o sinal de recompensa se acende no cortex pré-frontal ventromedial, o de ação ocorre no cortex pré-frontal dorsomedial. “O cortex frontal é responsável pela chamada função executiva, que tem papel de ‘gerente’ de nossas atividades motoras e cognitivas. Por ser uma área envolvida em predição e inferência de comportamento – o nosso e o dos demais –, somos capazes de predizer as ações e escolhas dos outros, assim como traçar padrões de comportamento”, explica Bruna Velasques, psicóloga do Instituto de Neurociências Aplicadas.

Segundo ela, o estudo confirma teorias que já ligavam o córtex frontal à empatia e à mudança de comportamento das pessoas. “Esse estudo reafirma o papel dessa área do córtex na evolução humana no que diz respeito ao aspecto social. Essa é uma hipótese que tem sido levantada por alguns pesquisadores e com certeza esse estudo vem corroborar a hipótese.” Bruna ainda acrescenta que essa atividade é mais comum e inconsciente em situações familiares, o que cria a “sintonia” entre pessoas que convivem mais. “Já situações novas ou diferentes implicam predições conscientes ou também consideradas controladas”, acrescenta.

Fonte :Estado de Minas
 

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